Helena Flores
Fotografia

fotografia · pessoal · prémios

Luz Interior

Sem luz não há imagem fotográfica. Mas isso é só porque uma câmara não é capaz de fechar os olhos e imaginar.

A fotografia vive de um olho mecânico, mas a mecânica da nossa apreensão do mundo vai muito para além dos dois olhos que a natureza nos pôs na face, ou não fossemos nós, desde sempre, capazes de pensar, e representar, o que nunca vimos. Admitamos que uma espécie que inventou religiões e, em algumas delas, um rosto para Deus tem, efetivamente, algo que às outras não foi concedido. Chamemos-lhe luz interior.

Não é coisa que se descubra assim de imediato essa luz que, em aparente contradição com o seu nome, “não se vê”. Aconteceu-me isso, aliás, neste projeto realiza­­do para uma disciplina do Curso Profissional do Instituto Português de Fotografia. Num primeiro momento, propus-me fotografar a exploração das dez esculturas contemporâneas do Parque de Serralves por uma pessoa invisual. Ainda que pensasse que, com esta abordagem, poderia mostrar como se ultrapassa o conceito visual das obras, explorando outros aspectos importantes para a formação das imagens, é fácil de ver (pensar), que, nesta perspectiva, a luz que alimentaria o trabalho não deixava de ser a que entrasse pela objectiva dentro.

Mas o ser humano, que, ao contrário de uma câmara, não vem todo explicado num manual de instruções, tem uma capacidade de nos surpreender. Depois de um moroso processo de procura de alguém, cego, que aceitasse participar no projeto, o que, dado o limite de tempo para a conclusão do trabalho, quase me levou a desistir, cheguei até Ana Filipa. Que me trouxe não apenas a vontade de se deixar ver explorando, com o seu corpo, arte que os “normovisuais” apreendem quase sempre apenas olhando – o que fizemos nós às nossas mãos? – mas também a vontade de representar aquelas esculturas. Porque Ana, mesmo não “vendo”, desenha.

O trabalho ganhou, assim, outra dimensão, outra abordagem, outra luz. A dela. A tal que vem de dentro e que, darwinismo ou outra coisa mais transcendental, nos faz seres tão especiais. E, conceptualmente, as fotografias de Ana perscrutando a arte pública do parque deram lugar a dípticos: de um lado o meu olhar sobre o seu modo de “ver”. Do outro um simples registo, fotografia processada para negativo e assim impressa, da representação que ela fez, em papel cavalinho, daquele bocadinho de mundo em que nos cruzamos por umas breves horas.

brassai-notre dameComo que levando ao limite o que é – escrever com luz, na etimologia grega – a fotografia sempre se interessou por explorar as possibilidades de apreensão das formas do mundo quando a luz é escassa. Na imagem ao lado vemos que Brassai, por exemplo, andou atrás da Nuit de Paris, em 1933. Mas o que se percebe é que, mesmo nessa abordagem, como noutras, as sombras, os recortes negros, só se formam porque atrás, ao lado, onde quer que seja, há sempre luz. É preciso então passar de uma abordagem física, para uma outra mais psicológica, como faz Sophie Calle, em Les Aveugles (invisuais), de 1986, no qual, respondendo a uma obsessão sua, aborda o conceito abstrato de beleza criado no cérebro e não a partir da visão.

PAR114470A reflexão que acabei por realizar com este trabalho aproxima-se mais desta concepção, iluminando-se também com a abordagem, já de 2014, da mexicana Miriam Sánchez Varela, em Luz Profunda, que toca a cegueira fugindo ao retrato e atentando na mímica corporal e facial. Outra influência forte neste projecto é a de David Seymor quando, em 1948, em Roma, fotografa um menino a ler braille com os lábios, retratando a extraordinária capacidade de adaptação do ser humano. Em ambos, como neste Luz Interior, coexiste a opção pelo preto e branco. No meu caso, ela é explicada pela vontade de abstrair o nosso olhar das cores que saturam a nossa forma de perceber o mundo, pedindo-lhe, por momentos, que se concentre na formas. Essas que têm uma linguagem própria, comum aos invisuais e aos normovisuais que não tenham esquecido a velha máxima: olhar e ver são coisas distintas.

 


Excerto da memória descritiva do projecto Luz Interior enviada para o concurso Novo Talento FNAC de Fotografia de 2014 e que me valeu o primeiro prémio.

01/01/2015 • #, #, #, #, #

0 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *