Helena Flores
Fotografia

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Embalada pela música que os portugueses deixaram na Terra Nova

Art Stoyles, autor de “The Portuguese Waltzes”. Foto original de Sheilagh O’Leary

Quando nasci, em 1978, o meu pai havia deixado, recentemente, a pesca do bacalhau. Cresci com a memória desses anos em que ele se afastava meio ano da família, para, em águas longínquas do Canadá e da Groenlândia, pescar o peixe favorito dos portugueses. O reencontro entre ele e a minha jovem mãe, com o meu irmão mais velho, um bebé, ao colo, numa dessas chegadas, no fim de Setembro de 1967, ficou imortalizado nos minutos finais do documentário The Lonely Dorymen: Portugal’s Men at the Sea, realizado por George Sluizer para a National Geographic. 

Foi, por isso, com um misto de surpresa e enorme agrado que em 2023 recebi o convite do músico e escritor canadiano Richard Simas para desenvolver um trabalho fotográfico a partir do seu projecto literário sobre as ligações entre Portugal e a Terra Nova, do qual resultou o livro de crónicas Searching for the Origins of the Portuguese Waltzes (Peter Lang, NY, 2024). Nele, Richard Simas explora, pelo lado português, a pista deixada pelo acordeonista Art Stoyles  (1943-2015) que atribui à relação próxima que teve com um dos capitães da frota portuguesa, da pesca do bacalhau Manuel da Silva, a aprendizagem de temas do folclore português que o inspiraram para alguma da sua música, e principalmente para The Portuguese Waltzes, bem conhecida em São João da Terra Nova. 

Conhecedor do meu percurso fotográfico muito ancorado a temas de cultura marítima, e da minha inscrição biográfica numa comunidade que teve grande importância para a pesca do bacalhau em Portugal, no século XX, Richard Simas desafiou-me a criar um conjunto de fotografias que estabelecesse uma narrativa paralela e que enriquecesse os textos desta obra. Reflectindo sobre o convite, considerei curioso que o tenha dirigido à filha de um antigo membro da tripulação do navio Vila do Conde (nome da minha cidade Natal), a bordo do qual, a convite de outro pescador, amigo da família e cidadão do Canadá,  José Carlos Eusébio, o jovem Art Stoyles terá passado bons momentos.  Conviveu o meu pai nos anos 60 com esse músico de rua que, com o tempo, ganhou tão grande estatuto na Terra Nova? São tantas as coincidências que vou imaginar que sim. 

Em Portugal, a memória da pesca ao bacalhau está ainda entranhada entre os antigos bacalhoeiros. Muitos mantêm vivas as lembranças das paragens em St. John’ s, onde tentei respirar algo dessas memórias em 2015, quando ali estive, fotografando a produção de um documentário sobre esta relação transatlântica, A um Mar de Distância, de Pedro Magano. Alguns homens recordam Art Stoyles e o seu acordeão, as subidas ao morro ou o banho e o serão na Casa dos Pescadores, há muito desactivada. Momentos marcantes de uma cidade e um porto que lhes dava abrigo, e os punha a salvo das tempestades no mar.

Pescadores do Bacalhau nos anos 60. Fotografia original do arquivo pessoal de Celestino Ribeiro

Deste lado do Atlântico, este património cultural está bem patente no Museu Marítimo de Ílhavo, local onde podemos imergir, por momentos, nessa realidade. Tocar nas águas frias do aquário dos bacalhaus transporta-nos para o ambiente daquelas paragens. Estamos olhos nos olhos com o tão desejado peixe, aquele que nos moveu, então enquanto fonte de riqueza nutricional e económica, e que ainda nos move, pela riqueza cultural que nos legou. Como introduzir na fotografia todos estes intervenientes: as memórias, os que as detêm, o tempo e o lugar? E o peixe, o mote desta herança?

A resposta, encontrei-a em Nos mares do fim do mundo, espécie de diário de viagem de um médico que, sob o nome artístico Bernardo Santareno, conheceu e tratou a minha gente, no bacalhau, em 1958.  Como vento pela popa, a leitura desta obra empurrou-me para a ideia de fotografar o fundo do mar. É particularmente intensa a crónica O Sonho, que começa assim:

Corria pelo fundo do mar, perfeitamente livre, como que alado, respirando sem qualquer esforço: apanhava flores lindíssimas, jamais admiradas antes, e escolhia conchas, azuis ou róseas, de formas encantadoramente bizarras. Sentia-se leve e feliz. E quando, por acaso, se mirou numa estrela de oiro que, cadente, lhe passava em face do rosto, ficou estupefacto: era muito mais jovem, agora.

E se pudesse criar imagens inspiradas neste texto, lá em baixo, nas profundezas? Os grandes bancos da Terra Nova constituiriam o fundo fotográfico ideal para este trabalho mas, consciente da impossibilidade de navegar para tão longe, considerei  razoável e também simbólica a alternativa de realizar o projecto no aquário dos bacalhaus do Museu Marítimo de Ílhavo, ele próprio uma espécie de memória (literalmente) viva, em close-up, desses mares. Após contacto com esta instituição com a qual venho colaborando, percebi que existia abertura para ali realizar este projecto, tendo sido apenas levantadas algumas questões relativas à segurança e bem-estar dos bacalhaus. 

Fotografei o farol de Cape Spear em 2015, durante um trabalho na Terra Nova.

Essas questões, aliás, obrigaram-me desde logo a pôr de parte uma intenção inicial de mergulhar na água alguns objectos relacionados com esses tempos. Alei as minhas ideias, voltei a vislumbrar o plano (de água) e encontrei inspiração para uma alternativa no trabalho da documentarista portuguesa Tânia Dinis, que vem realizando filmes documentais (um deles sobre a minha comunidade) a partir da manipulação, sobre uma caixa de luz, de imagens de arquivos pessoais impressas em filme transparente, criando uma narrativa fílmica a partir da projeção, em vídeo, dessa interação. 

Decidi, assim,  que o filme transparente pode ser o suporte seguro, translúcido, com o qual transportarei, para esse mar-memória enclausurado em vidro, a memória, antiga ou contemporânea, dos protagonistas das crónicas de Richard Simas, que já tive oportunidade de ler. Procurei pessoas referidas nesta obra para as retratar, recolhi imagens dos seus acervos pessoais relacionadas com a época em questão e contactei homens que guardavam imagens da pesca do bacalhau, reinterpretando tudo isto num confronto com o glorioso peixe.

Volto a partilhar mais um pouco da crónica que me foi guiando o caminho e que resume o último dia de vida de um pescador que desapareceu no mar depois de um estranho sonho, na noite anterior, que partilhou com um amigo.

A certa altura, porém, lembrou-se dos filhos pequeninos e quis levar-lhes as flores e as conchas: tentou por isso voltar à superfície. Em vão: sempre que experimentava nadar para terra, o mar tornava-se duro e impenetrável. Angustiado, repetiu a tentativa uma, duas… cem vezes: impossível.

Transversal aos que iam e aos que ficavam, a angústia da perda e da morte constitui um dos sentimentos dominantes deste passado. Será por isso, também, que esse tempo tanto me estimula, a ponto de ter trabalhado o tema noutros projectos (em Saudade levada ao Peito, Nós os Afogados, ou na série sobre as campas abandonadas no cemitério de Mount Carmel, em St. John’s. A instabilidade que sempre associamos ao mar, lugar a que somos estranhos, é metáfora dos meus meus próprios medos, enquanto artista, receios nesse sentido paralelos ao que sente a personagem principal do livro infantil The Mystery of the Portuguese Waltzes, outra criação de Richard Simas a partir do legado de Stoyles. Mas quando aceitamos desafios como este, é sempre na expectativa de carregar o bote, e regressar a casa com histórias para contar. Há, por isso, que remar, que o peixe aguarda sempre a linha que havemos de lhe lançar.

Texto adaptado da Carta de Intenções escrita a 28 de Março de 2023 e incluída no livro Searching For The Origins of the Portuguese Waltzes, de Richard Simas, editado pela Peter Lang, de Nova Iorque, em 2024

12/03/2026

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